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A Arte Barroca

Para melhor compreensão do fenômeno artístico do Barroco, é importante situá-lo no contexto da evolução das manifestações de arte no mundo ocidental :
A Idade Média, tida como período de obscurantismo e estagnação, foi, na verdade, uma época de elevada espiritualidade e conhecimentos que viriam a ter seu pleno florescimento no Renascimento, no século XV. Predominou na era medieval o estilo gótico que, com suas altíssimas e pontiagudas torres, traduziam a espiritualidade das aspirações artísticas da época.

A Renascença representou o renascimento dos anseios do povo, com o desenvolvimento da arte sob as mais variadas formas. Ao mundo objetivo, naturalista, contido, retratado em maravilhosas cores pelos artistas do Renascimento. Seguiu-se um período tido como a decadência da pureza desse estilo.

Surgiram elementos formais exacerbados, acrescentados à sobriedade das representações artísticas, feições próprias de encarar os objetos, certas alegorias e maneiras de organizar os espaços que levam a denominar este período evolutivo de Maneirismo.

Acredita- se hoje que o maneirismo foi um período de libertação do esquema rígido da Renascença, para que logo depois do Barroco se afirmasse com o desenvolvimento das construções feitas pela Companhia de Jesus, onde se implantariam a glória e a exaltação de Deus no conceito da Contra- Reforma.

O papel representado pelo trabalho jesuíta, dando ensejo aos artistas de desenvolverem seus impulsos criadores, cristalizou- se no que se considera hoje estilo jesuítico, também chamado de proto- barroco.

A arte barroca, conhecida como o “estilo contra- reforma”, já que seu aparecimento coincide com o período de efervescência religiosa que deu origem ao Concílio de Trento, em 1545, também é designada como “estilo de absolutismo”, pois na vigência do barroco prosperaram as monarquias absolutas da França, da Espanha, da Itália, e de Portugal, assim como o domínio inconteste do papado na Itália.

O Barroco foi a expressão artística com aproximadamente 200 anos de atividades construtivas, e sua manifestação teve que representar as emoções dos povos e das civilizações da época. Na sua expressão religiosa, ele tem o característico geral de uma aspiração ao infinito.

É suntuoso, porque assim exalta a glória de Deus; é redundante, porque reforça a expressão dessa glória; é cheio de formas esvoaçantes, que exprimem a espiritualização da fé. Dentro dessa aspiração, manifestou- se com riqueza espantosa onde houve recursos, sobretudo o ouro que amparava suas pretensões; e foi modesto, pobrezinho, humilde onde, mesmo à mingua de recursos, deixou sua marca nesta ou naquela composição que exprimiu tudo o que a veneração modesta do fiel pôde oferecer a Deus.

São todas expressões do Barroco, com cambiantes ligadas à situação social das comunidades. Se o suntuoso representa o Barroco na sua plenitude áurea, o modesto exprime o mesmo Barroco que, por sua vez, é a sua linguagem de fé.



Da Itália, a pintura barroca espalhou- se como a novidade derradeira do estilo artístico, sendo Caravaggio (1573-1610) seu maior representante. Ao contrário do frio maneirismo, a pintura caravaggesca é violenta e apaixonada, desenvolvendo-se toda ela num clima de profunda dramaticidade.

Cada centro cultural adota o Barroco e a ele adapta de acordo com as contingências nacionais, sobretudo o grau de riqueza e prosperidade de cada nação, subordinado, naturalmente, às características psicológicas de cada povo.

A Espanha, nação riquíssima , no gozo dos fantásticos tesouros da América espanhola, vê o Barroco desenvolvido na sua plena espiritualidade e riqueza, tendo a pintura alcançado altíssimo nível e sendo Diego Velázquez (1599-1660) a maior figura de sua época e de toda a pintura espanhola. A influência de Caravaggio faz-se sentir intensamente sobre a pintura espanhola do século XVII, mas a tal influência impõe o espírito nacional certas limitações, acrescentando-lhe, por exemplo, um misticismo que não aparece no original, e uma emotividade que o puro realismo desconhece.

Nos Países Baixos, deu-se notável surto artístico. O mais notável pintor barroco da Holanda, e decerto um dos gênios da pintura, em todos os tempos, é Rembrandt Harmens van Rijn. Em Flandres, na Holanda e no exterior, rica clientela manteve a produção da época, é em Flandres que nasce e trabalha uma das figura máximas do Barroco: Peter Paul Rubens (1577-1640), o qual, embora conservando o vocabulário maneirista era essencialmente barroco no modo como, em suas obras, cedeu lugar o desenho às massas coloridas, e a dinamicidade à placidez.

Em Portugal, ao tempo do reinado de D. Manuel, houve considerável surto artístico. O estilo manuelino, que medrou entre 1500 e 1517, foi a expressão original e decorativa do espírito de uma época e magnificência de um reinado. Neste estilo manuelino já se prenunciava o Barroco, entrevisto nos ornamentos das famosas janela do convento de Tomar. O Barroco de Portugal foi dividido em três ciclos, por Reinaldo dos Santos: o Barroco seiscentista do reinado de D. Pedro II (1667-1706); o Barroco em parte italianizante do reinado de D. João V (1706-1750); o rococó do reinado de D. José I (1750-1777).

Na França e na Prússia, o Barroco tem uma feição diferente: é mais refinado, menos pesado, com atributos próprios. Certa assimetria e enfeites apostos eram elementos consagrados que o tornaram característico, com uma riqueza sutil, sem o peso da opulência esfuziante do ouro que avassalava a Península Ibérica e este lado do Atlântico. Era a feição rococó do Barroco que, generalizando-se no fim do século XVIII, caracterizou seu declínio, seja porque sua longa caminhada que já chegava ao fim juntamente com o ouro que foi se acabando, seja porque escondeu sob o pretexto de um requinte do estilo a modéstia dos países que lhe davam guarida.

A diferença essencial entre a escultura maneirista e a barroca, é que o escultor maneirista procura criar um movimento limitado à própria escultura, isto é, pelos limites materiais de sua obra; o Barroco, ao contrário, busca contagiar todo o espaço circunvizinho com o movimento de sua escultura.

Como na Santa Teresa em Êxtase, de Bernini, ou na Assunção de Asam, os santos não estão estáticos sobre altares, mas ascendem, literalmente, aos céus. A decoração escultórica de obras arquitetônicas teve grandes representantes, sendo o alemão Permoser, autor das figuras ornamentais do Museu Zwinger de Dresden, o mais importante de todos.

Para melhor compreender a arquitetura barroca, convém ter em mente que ela foi gerada e mantida, por um lado, pelo absolutismo religioso, por outro, pelo secular. Além disso, é importante acrescentar que o arquiteto barroco subordinava a um espaço dominante, principal, uma série de espaços subsidiários, de modo a que todos se relacionassem dependentemente. No período Barroco, é a arquitetura a arte maior; pintura e escultura somente fazem completá- la e contribuir para a harmonia do conjunto.

O contraste de espaços côncavos (curvado na face interna) e convexos (curvado na face interna), a oposição de nichos (cavidade aberta em uma parede para colocação de imagens), emprestam a arquitetura barroca um dinamismo dificilmente encontrado em qualquer outro estilo. Ao lado de uma nova concepção espacial, encerra a arquitetura barroca uma nova noção do decorativismo, utilizado de modo exuberante.

Os principais edifícios seculares do período Barroco são os palácios, distinguindo-se de todos os demais pela riqueza ornamental. Os palácios barrocos, somente poderia ter sido erguidos em época de absolutismo, do qual são como que apoteose. O supremo exemplo dessa arquitetura absolutista é, naturalmente, a residência de Luís XIV, o fabuloso palácio de Versalhes.
Transplantada para a América Latina, a arte barroca adquiriu, nas possessões de Espanha e Portugal, forma particular, já que, casando-se a elementos locais, deu origem a vários sub-estilos regionais.

O Barroco no Brasil

Já haviam terminado em Portugal a euforia e a abundância contemporânea do Barroco, mas no Brasil ele sobreviveu mais de 60 anos ao europeu, pois justamente no fim do século XVIII e começo do XIX é que os dois maiores artistas barrocos de Minas trabalharam: o Aleijadinho, construtor, escultor e entalhador que trabalhou em sua geniais produções até 1814, ano de sua morte, e Ataíde, pintor.
O Brasil, sendo colônia riquíssima pela cultura e comércio do açúcar, teria que produzir um Barroco rico na sua representação máxima. Aí estão as construções de Minas Gerais, Rio de janeiro, Bahia e Pernambuco.

Igrejas barrocas com sua arquitetura imponente, com volutas imensas, cornijas, janelas, portadas com linhas características onde predominavam a curva e a simetria dos ornatos. O encanto das torres com suas cúpulas esféricas, às vezes sobrepostas, e suas pináculas. Que costuma dar enorme emoção para quem passa pelas portentosas portas almofadadas em relevo e faz cair no deslumbramento da comtemplação muda de um templo de ouro. Os retábulos com sua talha variada ao infinito, num labirinto de colunas em tortilhão (as colunas salomônicas) que se repetem, parecendo trazer para o presente a grande riqueza lendária do oriente. As folhas de acanto da Antiga Grécia revividas numa superioridade de movimentos, entremeadas com flores de lótus, margaridas e frutas.

Em meio a este turbilhão de formas de sustentação e de enfeite, anjos, cariátides, pelicanos e grifos completam o conjunto como chamas esvoaçantes de ouro, que exaltam a imagem de Cristo e dos santos de sua corte celestial. Entre os altares, quadros a óleo ou talha decorativa, num movimento contínuo, envolvendo os fiéis que, olhando para cima, vêem o próprio céu no além representado no forro pintado: a porta celestial para o infinito, para a companhia dos anjos, da Virgem, dos apóstolos e do próprio Deus.

Em contraposição, deve-se reconhecer que o Barroco não foi assim representado no Brasil todo, pois houve regiões onde as condições determinaram outro tipo de construções. Nelas, teve expressão modesta, sem ouro: a talha, ambiciosa na sua pobreza, manifesta-se em alguma coluna salomônica, em raras volutas simétricas em linhas curvas, numa que outra folha de acanto, em ratos e grosseiros anjos. O intuito na fé foi o mesmo, os recursos é que foram mínimos. Havia abundância de ouro bruto, mas faltavam artistas e materiais adequados que permitissem uma representação consentânea com o desejo do clero. A diferença é tão grande que se poderia negar o espírito barroco no ambiente pobre, o que não é justo nem verdadeiro.

Em São Paulo não parece existir nenhum estudo geral, mas sim estudos particulares, que em confronto com o Barroco das zonas auríferas, das Minas Gerais, em geral é pobre, embora por São Paulo tenha transitado ouro de Cataguases e de Cuiabá, o clima social paulista continuou modesto, parcimonioso, por todo o século XVIII. E assim, foi com modéstia e parcimônia que fizeram suas construções religiosas barrocas. Se houve Barroco rico na orla marítima onde também não houve ouro, isso deve-se explicar-se pela presença, ali, dos senhores de engenho e dos negociantes que se enriqueceram no tráfico com os mineradores, aos quais exploravam na troca de escravos e de mercadorias de subsistência ou não, pelo ouro retirado das minas.

Hoje, acredita-se poder encontrar na evolução desse Barroco, várias fases: a primeira, do Barroco primitivo, parece estar ligada ao trabalho dos jesuítas na segunda metade do século VXII; a segunda fase no começo do século XVIII, é quase negativa, pois ocorreu então a debanda dos homens válidos para as minas de Cataguases, Cuiabá e Goiás e está representada por alguns altares da igreja do Embu; a terceira fase é aquela em que houve tentativas de se dotarem as igrejas de altares condignos, de talha dourada, o grandioso altar de Nossa Senhora da Conceição da Ordem Terceira de São Francisco (1736-1740) é dessa fase.

A terceira fase é aquela em que houve tentativas de se dotarem as igrejas de altares condignos, de talha dourada, o grandioso altar de Nossa Senhora da Conceição da Ordem Terceira de São Francisco (1736-1740) é dessa fase; a quarta fase coincide com a estagnação das minas e a volta a São Paulo dos homens frustados em suas ambições, e são deste período muitos entalhadores, pintores, douradores e fazedores de imagens; é a fase “do entusiasmo barroco “ em São Paulo; nela se construíram duas igrejas das Ordens Terceiras ( São Francisco e Carmo) e o convento da Luz. No século XIX ampliou-se o ambiente religioso de São Paulo, mas já era no fim do Barroco.

O Barroco em Goiás é bem modesto, em comparação ao de Minas e ao de certas cidades litorâneas. Uma das razões da diferença foi a falta de pessoas competentes, pois a população era constituída em boa parte por aventureiros, na maioria de São Paulo; outra importante razão foi a curta duração de escassos 20 anos de ouro em Goiás. Não obstante, há remanescentes barrocos em povoações do século XVIII, ligados ao ciclo de ouro, que em Goiás foi altamente influenciado pela atividade dos paulistas, assim, compreende-se que não se feito lá, o que não foi feito em São Paulo.Em Goiás o Barroco sobreviveu ao Barroco mineiro na obra extraordinária de José Joaquim da Veiga Valle, natural de meia Ponte, um dos mais importantes escultores goianos(1806-1874).

No estado de Mato Grosso o Barroco é muito pobre, em virtude das condições locais, materiais, e emocionais, que não criaram o “clima” considerado conveniente ao desenvolvimento da arte barroca. Mesmo com o ouro descoberto em Cuiabá em 1719 e que durante certo tempo houvesse abundância do mesmo, a localização geográfica de Mato Grosso não permitiu ultrapassar a condição do centro provinciado e não houve uma estabilidade que permitisse o surgimento de arraiais, como em Minas Gerais e Goiás, por isso mesmo são modestas as manifestações artísticas de suas comunidades pouco estáveis, a vista de dificuldades imensas que sobre elas pensavam: dificuldades de acesso, grandes distâncias dos núcleos mais adiantados de São Paulo e Minas, vizinhanças de índios hostis, proximidade dos espanhóis que instigavam os índios contra os portugueses.

Embora se afirme constantemente nada haver de Barroco no Sul do Brasil, a verdade é que há remanescentes barrocos modestos, raros, mas belos, existentes nos três estados do Sul do país: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Apareceu ouro na região de Paranaguá (PR) na Segunda metade do século XVIII. Outra riqueza do litoral sul foi a baleia; o apogeu de sua pesca foi entre 1750 e 1777. Da indústria ligada à pesca da baleia, e do ouro de curta duração de Paranaguá, resultaram algumas povoações que persistiram em decadência, por séculos. Talvez o único elo de todo o trabalho de talha da região tenha sido a população açoriana, que foi o elemento português de certa cultura, presente em toda ela. A mão-de-obra, todavia, deve ter sido autóctone, o que explica as divergências de lugar para lugar.

Curioso é o fato de que no Sul o único elo que une todos os retábulos é antes de natureza moral do que artística. Onde houve anjos, eles estavam vestidos. Somente uma exceção em Rio Pardo (RS), no altar de Nossa Senhora das Dores onde no alto do frontão há um pequeno anjo nu, segurando um cálice. É importante lembrar que também em Cuiabá os anjos da antiga matriz escondem sua nudez sob vestes compridas.